A FISPQ é a Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos, o documento que reúne os riscos de uma substância perigosa e orienta como manuseá-la, armazená-la, transportá-la e descartá-la com segurança.
Ela acompanha o produto do fabricante até o usuário final e serve como referência técnica sempre que alguém precisa decidir o que fazer — na rotina ou em uma emergência. Desde a publicação da ABNT NBR 14725:2023, esse documento passou a se chamar FDS (Ficha de Dados de Segurança).
A estrutura permanece a mesma, com 16 seções obrigatórias, mas o conteúdo ganhou novas exigências. Neste guia, você entende o que a ficha traz, quais normas a regulamentam, o que muda com a nova nomenclatura e, principalmente, como transformar essas informações em decisões práticas de armazenamento.
O que é a FISPQ e para que ela serve na prática?
O propósito da ficha é simples: comunicar perigo e orientar a ação. Nenhum produto químico perigoso deveria circular sem que quem o manipula saiba o que ele causa, como se protege e o que fazer quando algo dá errado.
A FISPQ resolve exatamente isso, reunindo em um único documento tudo o que o fabricante conhece sobre o comportamento daquele produto. Na prática, ela responde a perguntas que aparecem no dia a dia da operação:
- Quais riscos o produto oferece à saúde e ao meio ambiente;
- Qual EPI o operador precisa usar;
- Como armazenar sem provocar reação ou vazamento;
- O que fazer em caso de contato, ingestão, incêndio ou derramamento;
- Como descartar o resíduo e a embalagem corretamente.
O alcance do documento também vai além do chão de fábrica.
O operador consulta a ficha antes do manuseio; o transportador precisa dela para classificar a carga; a equipe de emergência recorre a ela para escolher o agente extintor certo; e o responsável técnico a usa para montar treinamentos e procedimentos internos. Cada um extrai uma parte diferente da mesma fonte.
Por que a FISPQ virou FDS?
A mudança tem data e motivo. Em 3 de julho de 2023, a ABNT publicou a nova versão da NBR 14725, que substituiu a nomenclatura FISPQ por FDS — Ficha de Dados de Segurança.
O objetivo foi alinhar o Brasil ao padrão internacional, já que o restante do mundo trabalha com o termo Safety Data Sheet (SDS). Seria um erro, no entanto, tratar a atualização como simples troca de sigla.
A norma passou por uma reestruturação profunda: as quatro partes que existiam antes — terminologia, classificação, rotulagem e ficha — foram consolidadas em um documento único, organizado em 7 capítulos e 17 anexos.
Além disso, os critérios de classificação ficaram mais detalhados e novas classes de perigo entraram na lista, como explosivos dessensibilizados e produtos perigosos à camada de ozônio.
Existe ainda um ponto que muitas empresas deixaram passar: o prazo. A norma concedeu 24 meses de transição, encerrados em 4 de julho de 2025. Desde então, toda ficha de segurança precisa seguir o novo formato.
Quem mantém arquivos com a versão antiga opera fora da conformidade, mesmo que o produto e o fornecedor continuem os mesmos.
Qual norma regulamenta a ficha de segurança de produtos químicos?
Três referências sustentam a ficha de segurança de produtos químicos no Brasil, e cada uma cumpre um papel distinto:
| Referência | O que estabelece |
| ABNT NBR 14725:2023 | Como classificar o produto, elaborar a FDS e montar o rótulo |
| NR-26 | Obriga o empregador a garantir o acesso dos trabalhadores às fichas |
| GHS (ONU) | Sistema internacional de classificação e rotulagem que serve de base à norma |
A leitura conjunta dessas três referências mostra a lógica do sistema. O GHS define a linguagem universal de perigo — pictogramas, frases H e frases P. A NBR 14725 traduz essa linguagem para a realidade brasileira e determina o formato do documento.
A NR-26, por sua vez, fecha o ciclo no ambiente de trabalho, exigindo que a ficha esteja disponível para quem manuseia o produto.
Quanto à responsabilidade, não há margem para dúvida: quem fabrica, importa ou fornece o produto químico precisa elaborar e entregar a ficha, gratuitamente e em português. O comprador, por outro lado, tem o dever de exigir o documento atualizado e mantê-lo acessível a toda a equipe.
Quais são as 16 seções da FISPQ?
As seções da FISPQ seguem uma ordem rígida. Nem a numeração, nem a sequência, nem os títulos podem ser alterados — essa padronização existe para que qualquer profissional encontre a informação no mesmo lugar, independentemente do produto ou do fabricante. Veja o que cada uma traz:
| Seção | O que você encontra |
| 1. Identificação | Nome do produto, dados do fabricante e telefone de emergência |
| 2. Identificação de perigos | Classificação GHS, pictogramas e frases de perigo |
| 3. Composição e ingredientes | Substância pura ou mistura, número CAS e concentrações |
| 4. Primeiros-socorros | O que fazer em caso de inalação, ingestão ou contato |
| 5. Combate a incêndio | Agente extintor adequado e riscos de combustão |
| 6. Controle para derramamento ou vazamento | Métodos de contenção, neutralização e proteção ambiental |
| 7. Manuseio e armazenamento | Condições seguras de uso e guarda do produto |
| 8. Controle de exposição e proteção individual | Limites de tolerância e EPI obrigatório |
| 9. Propriedades físicas e químicas | Estado físico, pH, ponto de fulgor, solubilidade e outros dados |
| 10. Estabilidade e reatividade | Materiais incompatíveis e condições a evitar |
| 11. Informações toxicológicas | Efeitos do produto sobre o organismo humano |
| 12. Informações ecológicas | Ecotoxicidade, persistência e mobilidade no solo |
| 13. Destinação final | Como descartar resíduos e embalagens |
| 14. Informações sobre transporte | Número ONU, classe de risco e grupo de embalagem |
| 15. Regulamentações | Legislação aplicável ao produto |
| 16. Outras informações | Referências, abreviações e dados complementares |
Duas novidades da versão 2023 merecem atenção especial. A Seção 1 passou a exigir um telefone de emergência disponível 24 horas, e a Seção 9 ganhou o item “características da partícula”, preenchido quando o produto é sólido. Esses detalhes costumam ser o primeiro sinal de que uma ficha está desatualizada.
Como usar a FISPQ para armazenar produtos químicos com segurança?
Chegamos ao ponto que a maioria dos conteúdos sobre o tema ignora. A ficha não é apenas um documento de arquivo: duas de suas seções geram obrigação física dentro da empresa.
As Seções 6 e 7 descrevem condições que só se cumprem com estrutura e equipamento adequados — e é aí que a leitura vira investimento em segurança.
O que a Seção 7 exige do armazenamento
Essa seção define como o produto deve ser guardado, e cada item tem consequência prática no galpão. Ela trata de temperatura, ventilação, exposição à luz, segregação entre produtos incompatíveis e, sobretudo, do recipiente correto.
Um mesmo depósito pode abrigar substâncias que não podem se aproximar, e a ficha indica exatamente quais. O recipiente merece atenção redobrada quando o produto é líquido.
Materiais que reagem com a substância comprometem a estanqueidade e criam risco onde deveria haver proteção. Por isso, tanques de polietileno resistem ao ataque químico da maioria dos formulados industriais e não reagem com o conteúdo armazenado, mantendo o produto estável ao longo do tempo.
O que a Seção 6 exige em caso de vazamento
Enquanto a anterior previne, esta seção reage. Ela descreve os métodos de contenção, neutralização e limpeza que a empresa precisa ter à disposição antes que o acidente aconteça — não depois.
As orientações incluem proteção pessoal, isolamento da área e, principalmente, o impedimento de que o produto alcance o solo, a rede de drenagem ou um corpo d’água. Cumprir este requisito exige contenção secundária no ponto de armazenamento.
O pallet de contenção atende diretamente a essa função: ele sustenta tambores e bombonas e, ao mesmo tempo, retém o volume derramado em sua bacia integrada, evitando que o vazamento se espalhe pelo piso. Trata-se da resposta física à exigência que a ficha registra no papel.
O que acontece com quem não mantém a ficha atualizada?
Ignorar a atualização custa caro em mais de uma frente. No campo trabalhista, a NR-26 obriga o empregador a assegurar o acesso dos trabalhadores às fichas de segurança; a ausência do documento — ou a presença de uma versão vencida — configura descumprimento e abre caminho para a autuação da fiscalização.
Há também o impacto sobre auditorias e certificações. Empresas que mantêm ISO 9001, ISO 14001 ou ISO 45001 precisam comprovar controle documental sobre os produtos químicos que utilizam. Uma ficha fora do padrão vigente aparece como não conformidade e compromete o resultado da auditoria.
Vale reforçar, por fim, que a responsabilidade é compartilhada. O fabricante emite o documento, mas cabe ao comprador cobrar a versão atualizada, organizar o arquivo e garantir que cada setor tenha acesso à ficha dos produtos que manipula. Delegar essa cobrança ao fornecedor e esquecer do assunto é justamente o erro mais comum.
Como ler uma FDS antes de usar o produto?
Ninguém precisa decorar as 16 seções para trabalhar com segurança. Antes do primeiro uso de qualquer produto químico, uma leitura rápida em seis pontos resolve a maior parte das dúvidas:
- Identificação (Seção 1): confira se a ficha corresponde ao produto e anote o telefone de emergência;
- Classificação de perigo (Seção 2): identifique se o produto é inflamável, corrosivo, tóxico ou oxidante;
- EPI obrigatório (Seção 8): verifique luvas, óculos, respirador e vestimenta exigidos;
- Incompatibilidades (Seção 10): descubra o que não pode ficar por perto;
- Contenção (Seções 6 e 7): confirme se o recipiente e a estrutura de contenção atendem ao exigido;
- Descarte (Seção 13): planeje a destinação do resíduo e da embalagem antes de abrir o produto.
Transformar essa sequência em rotina muda o resultado. Quando a equipe consulta a ficha antes de manusear, o acidente deixa de ser uma questão de sorte e passa a ser uma variável controlada.
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Entender o que é FISPQ significa reconhecer que o documento não termina no arquivo: ele descreve riscos, define cuidados e aponta exatamente qual estrutura a sua operação precisa ter.
Quando a empresa lê a ficha com esse olhar, a conformidade deixa de ser burocracia e vira proteção real para as pessoas, o patrimônio e o meio ambiente.
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